Quando muitos falam, pouco se entende. No ciberespaço hoje, mais do que nunca, muitos falam para muitos de modo homogêneo, resultado da contínua facilitação dos meios de publicação de conteúdo on line, do hábito dos bloggers de apenas reproduzir notas para adicionar comentários ou splogs. Os weblogs ainda são considerados ruído comunicacional, mas admitimos que é um fenômeno tão poderoso quanto a própria WWW. Prever seu retrocesso é também apostar na descontinuação da Web.
Resta, então, para as grandes empresas e mídias tradicionais construir formas de capitalização destes padrões que surgem das várias correntes lingüísticas e ideológicas que convergem para a Web. Mesmo agora dispondo livremente do melhor instrumento democrático já inventado estamos ainda sujeitos à manipulação?
Nesta semana, o Technorati comemorou a indexação do blog número 20 milhões. Apenas alguns dias antes, a publicação de suas análises trimestrais sobre a evolução da blogosfera caiu como uma bomba. A notícia evadiu do meio geek e foi para a primeira página dos grandes jornais. A notícia traz o sabor amargo do medo das mídias tradicionais na perda contínua de seu “poder de contar a verdade”. Reflete também o receio dos departamentos de comunicação institucional e marketing das grandes empresas sobre informações não filtradas sendo publicadas e acessíveis a qualquer mecanismo de busca. Como contra-ataque, quesítiona-se a qualidade informacional dos blogs, desacreditando-os. No entanto, o público que sempre confiou mais no boca-a-boca do que nos displays coloridos não irá decepcionar a nova mídia.
A blogosfera em si é uma mídia poderosa, mesmo sendo formada por weblogs que, no máximo, contam com uma circulação diária de um jornal provinciano. Não é individualmente que estes sites fazem a diferença, e sim seu conjunto (ou o blogroll pessoal) e os padrões informacionais que emergem deles. É fácil encontrar uma conta no Bloglines com mais de cem websites e weblogs atualizados constantemente. Estes usuários estão sendo submetidos não a um discurso unificado, construído e programado, mas à uma sopa informacional (ou tag clouds). Não sem razão, muitos leitores se desesperam, eliminam de suas vidas listas de discussão, comunidades virtuais e contas de mensageiros instantâneos. Por outro lado, empresas cortam acesso à Internet com medo das horas perdidas por seus funcionários em sua navegação diária.
As tag clouds, antes referências pop curiosas, constituem uma referência visual mais precisa da carga informacional a que os usuários da Web estão sendo submetidas diariamente. E estão justamente nas tag clouds a estratégia para a manipulação da informação que vem das grandes empresas e mídias tradicionais.
Em setembro, a Universal Pictures convidou um grupo de top bloggers para assistirem gratuitamente uma matinê de Serenity, agora em cartaz nos Estados Unidos. Em troca, estes blogueiros assinaram um termo de compromisso de publicação da sinopse do filme em seus sites pessoais. No dia seguinte, o filme já constava na lista dos filmes mais comentados no Technorati, de onde ainda não saiu.
Isso é apenas o começo. Imagine uma extensa manipulação dos termos para favorecer o Microsoft Windows em aplicativos Web como o Operating System Suck-Rules-O-Meter, por exemplo. É muito fácil conseguir isso. O resultado do recente referendo para a proibição de comércio de armas de fogo pode ter sido também influenciado desta forma. Fazendo uma rápida análise na minha caixa postal, concluo que recebi muito mais mensagens pelo voto contra a proibição do que a favor. Quantos votos foram gerados nesta sopa sem um real quesítionamento consciente destes eleitores?
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