Doutrinação ágil

Bolo de fubá

Para aqueles que buscam uma solução rápida, uma receita de bolo de fubá exclusiva.

Uma das primeiras conclusões que se chega em um graduação em psicologia é que não há uma receita pronta para estabelecer uma melhor interação entre pessoas. Não é só jogar um ovo, meia xícara de leite, colocar no micro-ondas por dez minutos e teremos uma equipe capacitada, motivada e alinhada com os objetivos da empresa. E quanto mais olho os textos e as ementas de cursos sobre as metodologias ágeis sob esta perspectiva mais vejo que tudo é feito como receita de bolo, sendo que cada empresa demanda uma certa proporção de ingredientes que não é inicialmente dada. Antes não havia método algum, entendo, mas agora saboreamos bolo solado como se fosse ambrosia.

Costumava rir dos gerentes que não percebiam que metodologias envolviam tanto processos quanto pessoas. Não faço mais isso. Vejo mais claramente agora qual é o custo alienante para cada profissional de uma célula de desenvolvimento.

É extremamente difícil escapar de oferecer uma solução para uma equipe de tecnologia. Lembrando de todas as piadas de humanas versus exatas que ouvi em todos estes anos nesta indústria vital, esta diferença de pensamento existe e dificulta a comunicação. A solução de problemas é o modo de vida de um programador. Como dizer que para certas coisas no mundo corporativo não há uma solução? Ou então que a busca por uma interação pessoal ótima é uma utopia saudável para todo profissional. O mais perto de conseguir isso foi quando sugeri que alguém devesse desligar o computador para que a rede voltasse a funcionar. Não faz sentido algum, mas conseguimos chegar a um resultado favorável empiricamente!

Todos aqueles instrutores de metodologias ágeis tiveram mais sucesso do que eu. Eles apareceram com um manifesto, algumas dinâmicas de grupo e nenhuma pergunta sobre como o mundo funciona deveria ser feita. Alguns textos ou palestras são claramente doutrinações e não treinamentos. Funciona do mesmo modo que o computador com problema de rede: desliga a cultura da empresa, desfragmenta o disco e liga de novo.

O problema com doutrinas é que não é nada científico, o que torna tudo muito irônico. Enquanto tentamos provar nossas soluções com o código logicamente construído, todo o processo das metodologias ágeis que envolvem pessoas é ritualístico e dogmático.

Há pouco ouvi um astrólogo defendendo sua prática em uma recepção de consultório médico. Para ele, o método científico não dá conta de explicar todos os fenômenos e isso inclui principalmente os que são relacionados às pessoas. Deste modo, tudo que não pode ser explicado deve ser validado, tal como a astrologia!

Para qualquer bom cético, a lógica do astrólogo não faz sentido. Mas porque aceitamos então a opinião de alguém como a solução perfeita para nossos problemas de interação pessoal? E por que compramos esta solução sem questionar ou mesmo investigar qual é a formação do instrutor? O que acontece quando a metodologia falha, a empresa quebra, todo mundo é demitido? Vamos culpar a ira dos deuses?

Ainda não sabemos se a psicologia é uma ciência ou não. Alguns autores acreditam que esta é uma disciplina nova demais para ser estabelecida como ciência e que a neurociência nos trará mais indícios com os avanços da tecnologia. Mas certamente a complexidade do indivíduo não pode ser explicada por um método que usa duas variáveis para validar qualquer teoria. De qualquer forma, há muitos outros profissionais tentando fugir destas doutrinas para explicar estes fenômenos um a um, contextualizados nos meios onde eles ocorrem. Com times de tecnologia, não deveria ser diferente. O que falta então para evoluirmos de doutrina para um método ágil de verdade?

Por | Tags: , | Alterado em 20/05/15 às 13:05

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